quinta-feira, 2 de maio de 2013





Era a maçã

Era quase uma dor física. Os pensamentos espasmódicos flutuavam em torno da figura dela, ela tão distante, ela tão presente. Mesmo diante de tantas, em tantas, era nela que o pensamento teimava em pensar. E por mais que ele negasse, resistisse, ela vinha como verdade absoluta, feito um turbilhão a disparar o coração, vidrar os olhos como uma bebida alucinógena, como um cigarro que vicia. Se ao menos ela fosse um vício, com todas as cargas negativas que só um vício pode ter... Se ao menos ela fosse ruim. Seria tão mais fácil fechar a porta, deixar morrer.

Tentava a todo custo encontrar mazelas a fim de justificar o esquecimento. Era necessário esquecer. Mas ele sabia de quem ele estava falando e por isso mesmo lembrava o jeito manso de enrolar os cabelos longos, a mania leve de enlaçar as pernas entre as outras, como a dar um nó. Nó que o ataria para sempre! Os olhos cor de mel, os dedos esguios, as unhas sem pintura... ela inteira não tinha pintura e talvez fosse isso que fascinasse, enfeitiçasse. Ela tão ideal, tão promissora, tão diferente...

A dor era mesmo física, faltava-lhe o ar, os sentidos estavam conturbados, urgiam calmaria! Ele inteiro sentia dor por tanto querer! O que tinha de sentir outros cheiros? Justificava seus instintos de homem, era a regra geral, afinal! Mas ele tão inflexível, ela tão passional, ele tão proibido, ela tão espontânea...  

Não podia! Não era certo. As vocações eram outras, assim como os caminhos... mas houve uma concessiva a desmoronar tudo. Ou teria sido uma adversativa com vias de conclusão? O que se sabe é do que se sentiu antes da dor. Ela, a inocente. Ele, o predador. O santo, o quase padre. O pecador, o quase homem. Apesar da ausência de ações e palavras, o pensamento era um sertão imenso de desejo queimando como algo seco e constante. Eva, tão retirante, tão retirada! Eva, tocando piano e toda um silêncio só! Chegara muda e firme, arauto de inquietações. Eva fértil, convidando ao pecado.

Sem dizer palavra, fazia-o tremer, sem ao menos tocar fazia-o sentir coisas já esquecidas. Um único toque e tudo seria nada! Foi quando, diante do piano, a tecla emperrou e a música que inundava a sacristia estancou como um ferimento nobre, feito à bala. Foi preciso puxar, se achegar, estancar...

O que se deu depois foi de um lirismo erótico sem igual! Ele ao lado dela, a tecla teimosa, as unhas sem pintura, a concessiva que imperou diante do braço roçando no outro braço, a boca salivando diante do reprimido... E ela, Eva inocente, de nada se apercebia e deixava que os cabelos envolvessem o pescoço dele. Ele Adão, quase padre no conhecer, dono de um desejo imantado mesmo sem nunca ter conhecido uma mulher. E os cabelos atando-o ao desejo, e os olhos chamando-o sem piscar...

Era quase uma dor física. Quase uma dor física que o fez desfalecer ao lado dela... que sentada ao banco, olhava desentendida. Ele arfante, ela, Eva desconhecida. Face a face, a um toque das mãos... houve o toque das mãos. E ele e ela... Eva tão inocente, ele tão Adão... Ergueram-se concomitantemente e ao passo em que ele recuava, ela incidia sobre o desejo violento. Eva descobridora! Eva pele na boca, beijo no seio...

Era quase uma dor física. Sexo no sexo, a concessiva diante de santos, anjos e castiçais. Eva real, unânime como um vício, gozo como descoberta. Eva, maçã! Ele, Adão inteligível. Ela, leve; ele suicida!
 
Carolina
2009

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